Hoje, na maioria das plataformas de IA jurídica, quem escolhe o modelo é o fornecedor. Ele escolhe com base nos próprios custos, o que é normal em qualquer negócio. Para o escritório, a pergunta útil é outra: o que continua nas mãos do escritório quando o fornecedor troca de modelo, ou quando você quer trocar de fornecedor.
O que aconteceu no Harvey em 2026
O Harvey é uma das plataformas de IA jurídica mais usadas por grandes escritórios. Em setembro, a empresa disse à Bloomberg que seu consumo de tokens tinha aumentado 20 vezes desde o início do ano. Cada token processado tem um custo, e quem paga o provedor do modelo é o Harvey.
Esse custo tende a subir. Em junho de 2026, Shawn Curran, da Jylo, disse ao Artificial Lawyer que ninguém vai subsidiar fornecedores de tecnologia jurídica num regime de rodízio. Segundo ele, o trabalho jurídico com IA passa a encadear mais etapas, e cada etapa consome tokens.
A Bloomberg, citando uma pessoa a par do assunto, relatou que a margem bruta do Harvey passou de cerca de 50% no início do ano para -50% em junho. O número não foi divulgado pelo Harvey. Segundo pessoas próximas à empresa, as margens voltaram a ser positivas depois do Tenet.
O Tenet foi lançado em agosto. É o primeiro modelo jurídico próprio do Harvey, ajustado a partir do Kimi K3. O Kimi K3 é um modelo de pesos abertos que a Moonshot AI, empresa de Pequim, lançou em julho.
O Tenet se soma aos modelos que o Harvey já usava. Segundo a Bloomberg, um slide da Anthropic para investidores indica que o Harvey ainda precisa do Claude Opus para as tarefas mais difíceis. O cofundador Gabe Pereyra disse ao The Next Web que a plataforma já direciona cada tarefa ao modelo mais adequado.
Em março de 2026, o Harvey citava entre seus modelos o Claude Opus 4.6, o Sonnet 4.6, o GPT-5.2 e o Gemini 3 Flash. A lista muda com o tempo, e é o Harvey quem a define.
Uma boa decisão, tomada pelo fornecedor
Diante de custos de tokens em alta, construir um modelo próprio foi uma decisão sensata. Muitas empresas teriam feito o mesmo. Este texto não critica o Harvey nem o Legora.
O ponto é quem decidiu. Foi o Harvey, com base nos custos do Harvey. Em uma plataforma, o fornecedor escolhe o modelo que lê os documentos do escritório. Quando os números dele mudam, ele escolhe de novo.
Para o escritório, isso tem efeitos práticos. Os questionários de segurança enviados por clientes costumam perguntar qual modelo trata os dados. A resposta dada na contratação pode mudar durante a vigência do contrato.
O modelo é a parte fácil de trocar
Os modelos estão cada vez mais intercambiáveis. O próprio Harvey troca de modelo conforme a tarefa. Grandes escritórios também usam vários modelos ao mesmo tempo, dentro e fora das plataformas.
A pesquisa de tecnologia da ILTA de 2026, divulgada pelo LawSites, ouviu 508 escritórios associados, a maioria na América do Norte. No total, 44% usam ou avaliam o Claude e 43% o Harvey. O CoCounsel aparece com 44%, o Legora com 16% e o Copilot com 76%.
Entre os escritórios com mais de 700 advogados, 84% usam ou avaliam o Harvey, 64% o Claude e 47% o Legora. Pela conta, pelo menos 48% desses escritórios têm o Harvey e o Claude em uso ou em avaliação. “Usar ou avaliar” não significa que a ferramenta foi implantada.
Esses números vêm de escritórios norte-americanos. Não são dados da OAB nem da ANPD. Ainda assim, o Harvey e o Legora vendem fora dos Estados Unidos, e o mecanismo é o mesmo.
Segundo a Anthropic, o Legora usa o Claude em toda a plataforma. O Legora não publica uma lista completa de modelos. Ali também, quem define o modelo é o fornecedor.
O que de fato prende o escritório
O que prende um escritório não é o modelo, mas sim o prazo do contrato e o que foi construído dentro da ferramenta. Um porta-voz do Harvey disse à Fast Company, em 2025, que um grande escritório se compromete com 100 licenças por pelo menos um ano.
O segundo elemento pesa mais com o tempo. Em 10 de fevereiro de 2026, o Harvey informou em seu blog que os clientes já tinham criado 25.000 fluxos de trabalho personalizados. Cada fluxo reúne prompts, instruções e modelos de peças que custaram horas de trabalho de advogados.
Não sabemos se esses fluxos podem ser exportados, nem em que formato. Pergunte por escrito antes de assinar, e de novo antes da renovação do contrato. A resposta deve constar do próprio contrato.
Há ainda a avaliação de risco sobre os dados de clientes, que precisa ser refeita a cada ferramenta nova. O sigilo profissional do art. 34, VII da Lei nº 8.906/1994 continua sendo dever do advogado, seja qual for a plataforma. Violá-lo é infração disciplinar, punível pela OAB. A LGPD exige que o escritório demonstre como trata dados pessoais, e a ANPD pode pedir essa prova.
Para entender o que o preço de uma plataforma cobre, leia o que justifica o preço mais alto de uma plataforma de IA jurídica.
Duas coisas que ficam com o escritório
A primeira são os prompts e os roteiros de trabalho. Guarde-os em arquivos do próprio escritório, fora de qualquer plataforma. Quando a ferramenta muda, esse conhecimento continua em casa e pode ser usado em outra.
A segunda é a retirada dos dados identificadores. Se nomes, endereços e números de conta saírem do documento na máquina do escritório, o fornecedor recebe um texto sem as partes identificáveis. A avaliação de cada nova ferramenta fica mais simples.
Retirar identificadores não tira do documento o caráter confidencial. O conteúdo do caso continua confidencial e coberto pelo sigilo profissional. Por isso, use também uma conta corporativa cujo fornecedor não treine modelos com os dados enviados.
Como o promptShield faz essa parte
No promptShield, Codificar troca nomes, endereços, números de conta e outros identificadores por códigos curtos. A primeira letra do código indica o tipo de dado. Um código como [P0ABCD] mostra apenas o formato e não indica em que um nome específico vai se transformar.
Dentro de uma mesma pasta, o mesmo valor recebe sempre o mesmo código. Assim o modelo reconhece as mesmas partes de um documento para outro. Documentos em pastas diferentes recebem códigos diferentes.
O documento codificado pode ir para a ferramenta que o escritório escolher: o Claude, o ChatGPT ou uma plataforma jurídica. Os códigos são texto simples. Na resposta, Descodificar restaura os valores reais a partir do registro local de códigos, na sua máquina.
A detecção, o reconhecimento de texto e a ocultação rodam na sua máquina por padrão. A exceção é a camada opcional de Análise profunda: se ela for configurada com um modelo remoto, o texto das páginas sai da máquina. Os detalhes estão em como funcionam os códigos reversíveis.
Perguntas frequentes
Um escritório pode trocar de fornecedor de IA jurídica?
Pode, em geral ao fim do prazo contratado. O custo da troca está nos fluxos construídos dentro da ferramenta e na nova avaliação de risco dos dados de clientes. Prompts guardados em arquivos próprios e documentos codificados antes do envio reduzem esse custo.
Qual modelo o Harvey usa hoje?
O Harvey usa vários modelos. Desde agosto de 2026, isso inclui o Tenet, seu modelo próprio ajustado a partir do Kimi K3. Segundo a Bloomberg, a plataforma ainda precisa do Claude Opus para as tarefas mais difíceis.
O Legora usa o Claude?
Segundo a Anthropic, o Legora usa o Claude em toda a plataforma. O Legora não publica a lista completa dos modelos que usa. Se isso importa para o seu escritório, pergunte diretamente ao fornecedor.
O que pedir no contrato com o fornecedor de IA?
Peça por escrito quais modelos tratam seus documentos e como você será avisado de uma troca. Pergunte se fluxos e prompts podem ser exportados, e em que formato. Confirme também o prazo mínimo e se o provedor do modelo treina com os dados enviados.
Uma plataforma escolhida pelo que entrega
Com os prompts em arquivos próprios e os identificadores retirados na própria máquina, a escolha volta a ser do escritório. O Harvey, o Legora ou qualquer outra plataforma passam a ser contratados, e mantidos, pelo que entregam.